sábado, 26 de março de 2011

Liberte-me


Se reinvente ou ao menos tenha a dignidade de me deixar ir, de permitir que se abram para mim novos caminhos, de permitir que me pernas se abram para novas sensações. Quero, mas não consigo.... luto.... brigo... estapeio.... toco... me derreto e por fim, mais um dia desisto.
Às vezes tenho dúvidas se você realmente existe, ou é apenas uma neurose psicótica que me domina............................................................................................
Quero mas não consigo!
Olho cada cicatriz e revivo suas histórias, queria eu que elas fossem aparentes, seria como ser transparente, um livro aberto onde todos meus contos estariam contados em cada marca, em cada arranhão. Mas seria muito mais simples e quem disse que nós, meros mortais, simplificamos nossas vidas? Ou... na verdade passamos cada segundo de nossos dias tentando simplifica-las, mas um “Deus” capcioso e cheio de vontades e desejos se diverte com suas personagens, tornando sempre um pouco mais complicado o presente até o dia em que enjoa daquela vida e coloca um ponto final em nosso futuro.
Quero mas não consigo!
Desta vez tem que ser diferente, você não é a minha criação, não é doce como em meus gozos, não entende que para mim a vida são palavras e se não traduzo meu corpo em adjetivos, substantivos, sinônimos ou preposições ele não é nada mais que um corpo que deita em um chão frio ou na areia quente em busca de saciar uma fome que não é de amor.
Você se contradiz... é cheio de uma moral amoral... deixe-me ir, permita-me.... não busque meus olhos, não se concentre em minha boca, não me deixe inalar seu cheiro, não me toque... apenas me liberte.
Quero mas não consigo!
Quem disse que não tenho vícios, e não falo de vícios mundanos, falo de vícios que transcendem meu corpo e me corroem a alma e a mente... é fácil me afastar, o difícil é parar de te recriar... história após história... e a essência da personagem é a mesma.
Apago as luzes, silencio todos os ruídos escolho um perfume e mais uma noite eu tento.
Quero mas não consigo!

...


Não sabia o porquê, apenas se levantou... de repente, e pensou que de repente se escreve separado, sempre pensava nisso e imediatamente se lembrava da maldita professora do segundo ano que a fizera escrever quinhentas vezes de repente e que só aprendera depois dos vinte com um simples observação “de um repente”. Levantou-se, talvez estimulada pela embriagues e outros entorpecentes ou simplesmente por uma necessidade incontrolável de tomar sorvete, mas não podia ser qualquer um, tinha de ser AQUELE sorvete com a casquinha crocante e com a ponta de chocolate. O cara ao seu lado, o mesmo de sempre, mas que ela fingia, a cada dia, ser um diferente, tentou fazê-la desistir, era muito tarde, ou melhor muito cedo, e as condições de seu corpo e sua mente não eram nada favoráveis a uma busca de carro, mas naquela madrugada ela seguiria seus impulsos e mataria sua vontade de tomar o sorvete.
Quando ligou o carro para tirá-lo da garagem desejou que seu homem corresse para acompanhá-la ou simplesmente para impedi-la com uma cena tragi-cômica e cheia de romance, mas lembrou-se que o cara daquela noite não era dado ao romance muito menos a ceninhas.
Saiu... as ruas estavam desertas o que permitia que seus pensamentos ecoassem tão alto que por um momento teve medo de que alguém, que estivesse acordado na varanda de sua casa fumando um cigarro, pudesse ouví-los. Por que aquela noite? Tantas vezes teve vontade de tomar sorvete depois de um baseado, mas nunca se dispôs a sair de casa no meio da noite... por que aquela noite? Começou a pensar que talvez aquela não fosse uma noite qualquer, uma hora qualquer... “será que podemos sentir quando vamos morrer, pensamos acho que vou morrer hoje e ignoramos tal pensamento, afinal que besteira enorme é pensar isto?”. Em meio o aos devaneios lembrou-se de um filme e que na verdade ela poderia ser a personagem de alguém, e que aquele momento, tão confuso e intenso em suas reflexões sobre a hora da morte poderia ser o conto de algum escritor embriagado e com insônia. Você já sofreu de insônia? Pode ser horrível, principalmente se tentar lutar contra ela se revirando na cama procurando uma posição que lhe pareça aconchegante e lhe traga o tão desejado apagar que nunca vem, ou pode ser maravilhosa se por acaso você for tomado por uma onda de criatividade tão grande que mesmo sem nunca ter escrito ou pintado nada você começa a produzir desenfreadamente arte. Só não se anime demais, pois provavelmente não vão considerar sua produção uma obra de arte, mas a experiência será única e inesquecível. E se ela fosse personagem, e se aquele fosse um conto sobre sua última hora de vida, certamente começaria com mal sabia ela que aquele seria seu último sorvete, seu último prazer. Todos que lessem já saberiam que o conto tratava de sua morte menos ela. Mas o tal escritor boêmio que nunca conseguira o reconhecimento esperado por suas obras não contava com astúcia desta personagem, se era para morrer que fosse de maneira consciente e se era o último sorvete que fosse uma experiência orgasmática.
Achou uma loja de conveniência, desceu do carro como se muitos olhos a vigiassem, lembrou até mesmo de corrigir sua postura, tinha lordose e isso a incomodava muito. Pegou o sorvete, não precisou escolher, já tinha claro o que queria, na verdade gabava-se de sempre saber exatamente o que queria na hora de uma compra. Sorriu para o moço do caixa, um dos seus passatempos preferidos era jogar charme para todos sem exceção, não importava o gênero, a idade ou aparência física, gostava da sensação de poder que seu charme lhe dava, não importava se era real ou não, o importante é o que provocava a si mesma.
Voltou para o carro e procurou um lugar escuro para se render aquele último prazer, descascou a embalagem do sorvete vagarosamente se divertindo com o barulhinho que o papel rasgando produzia, chegou a gargalhar. Antes de dar a primeira mordida sentiu o cheiro e o gelado do sorvete próximo ao nariz, olhos e lábios. Era como se provocasse a si mesma, quanto mais vontade passasse mais saborosa seria a primeira bocada. Decidiu começar por cima e apenas com os lábios que ficaram sujos, sempre achou sensual uma mulher se lambuzar com creme, mas sem exageros, limpou delicadamente com a ponta da língua os lábios gelados. Foi então que numa explosão de desejo abocanhou o sorvete, era capaz de sentir o gosto de cada ingrediente separadamente, o creme, as castanhas, a calda quente que gelada fica durinha e estralava a cada mastigada, o gosto da baunilha, do chocolate e do doce de leite cremoso, era como se fosse o recheio... uma cobra de doce de leite. A casquinha fresquinha e crocante, odiava quando a casca estava murcha, mas não naquela noite... ela estava perfeita. A cada mordida um novo deleite, e enquanto seu rosto ia se resfriando o seu corpo esquentava, retorcia o dedos dos pés, sempre achou incrível como seus pés reagiam tão intensamente a tudo o que ela sentia e vivia, teve um namorado que só transava se ela vestisse meia, tinha aflição de seus dedos se contorcendo na hora do orgasmo, lógico que o namoro não durou com tanta falta de sensibilidade. Ao fechar os olhos naquele momento de prazer teve a certeza de que morreria feliz e sem planejar ou se questionar do porque veio em sua mente os diversos falos que já sentira em seu rosto, uma imagem mágica, os diversos tamanhos, formas, gostos e cheiros... se lembrava de tudo e passou a reviver, em um minuto, todos os gozos que já sentira e proporcionara, podia sentir porra escorrendo pelas suas pernas... era chegada a hora do fim... comeu a pontinha de chocolate e soltou um pequeno grito de felicidade. Deixou o seu corpo relaxar se moldando ao banco do carro e o papel cair no chão. Meio atordoada, levemente corada, por mais que fosse muito bem resolvida sexualmente suas maçãs faciais insistiam em avermelhar-se depois intenso prazer, ansiando por sua cama colocou-se a caminho de casa na busca de repouso seu corpo saciado. Chegou sem fazer barulho, foi deixando suas roupas pelo caminho e de maneira suave escorregou para debaixo da coberta sem olhar para o lado, não quis pensar se aquele era o fim, apenas escreveu num pedaço de papel qualquer que se encontrava na cabeceira....
Mal sabia ela que naquela noite...